NA VIDA
Pablo Neruda
1904-2004
Morre
lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo
todos os dias os mesmos trajetos,
quem não
muda de marca,
não arrisca
vestir uma cor nova
e não fala
com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz
da
televisão o seu guru.
Morre lentamente quem
evita uma
paixão,
quem
prefere o escuro ao invés do claro e
os pingos
nos "is" a um redemoinho de emoções, exatamente a que resgata
o brilho
nos olhos,
o sorriso
nos lábios e
coração ao
tropeços.
Morre lentamente quem
não vira a
mesa quando está infeliz no trabalho,
quem não
arrisca o certo
pelo
incerto,
para ir
atrás de um sonho.
Morre lentamente quem
não se
permite,
pelo menos
uma vez na vida, ouvir conselhos sensatos.
Morre
lentamente quem
não viaja,
não lê,
quem não
ouve música,
quem não
encontra graça
em si
mesmo.
Morre lentamente quem
passa os
dias queixando-se
da sua má
sorte,
ou da chuva
incessante.
Morre lentamente quem destrói seu amor próprio,
quem não se
deixa ajudar.
Morre lentamente quem abandona um projeto antes
de
iniciá-lo,
nunca
pergunta sobre um assunto que desconhece
e
nem
responde quando lhe perguntam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em
suaves
porções,
recordando sempre que
estar
vivo exige um esforço muito maior que o simples
ar
que respiramos.
Somente com infinita paciência conseguiremos a verdadeira felicidade.