Ode  ao  Rio  de  Janeiro
 
Pablo Neruda

1904-2004


 

 
Rio de Janeiro, a água é a tua bandeira,
 
agita as suas cores, sopra e retine no vento,
 
cidade,negra náiade,de claridade sem fim,
 
de abrasadora sombra, de pedra com espuma
 
é o teu tecido,o cadenciado balanço da tua rede marinha,
 
o azul movimento  dos teus pés areentos,
 
o aceso ramo dos teus olhos.
 
Rio, Rio de Janeiro,
 
os gigantes salpicam a tua estátua
 
com pontos de pimenta,
 
deixaram na tua boca dorsos do mar,
 
barbatanas perturbadoramente mornas,
 
promontórios da fertilidade, tetas da água,
 
declives de granito, lábios de ouro,
 
e entre as pedras quebradas o sol marinho
 
iluminando rutilantes espumas.
 
Ó Beleza,
 
ó cidadela de pele fosforescente,
 
romã de carne azul,
 
ó deusa tatuada em sucessivas ondas de ágata negra,
 
da tua nua estátua um aroma de jasmim molhado
 
se desprende, vem no suor, um ácido pegajoso
 
de cafezais e de frutarias
 
e pouco a pouco sob o teu diadema,
 
entre a dupla maravilha dos teus seios,
 
entre cúpula e cúpula da tua natureza
 
aparece o dente da desgraça,
 
a cancerosa cauda da miséria humana,
 
nos montes leprosos o cacho inclemente
 
das vidas, pirilampo terrível,
 
esmeralda extraída do sangue,
 
o teu povo estende-se até aos confins da selva
 
num rumor abafado, passos e surdas vozes,
 
migrações de esfomeados, escuros pés com sangue,
 
o teu povo, para lá dos rios, na densa amazônia,
 
esquecido, no Norte de espinhos,
 
esquecido, com sede nos planaltos,
 
esquecido, nos portos mordido pela febre,
 
esquecido,à porta da casa de onde o expulsaram,
 
pedindo-te apenas um olhar,
 
esquecido.
 
Noutras terras, reinos, nações, ilhas, a cidade capital,
 
a coroada, foi colméia de trabalhos humanos,
 
amostra do azar e do acerto,
 
fígado da pobre monarquia, cozinha da pálida república.
 
Tu és a espelhante montra de uma sombria noite,
 
a garganta coberta de águas marinhas
 
e ouro de um corpo abandonado,
 
és a porta delirante de uma casa vazia,
 
és o antigo pecado, a salamandra cruel, intacta
 
na fogueira das longas dores do teu povo,
 
és Sodoma,
 
Sim,
 
Sodoma
 
deslumbrante,com um fundo sombrio
 
de veludo verde, rodeada de crespa sombra,
 
de águas ilimitadas,
 
 dormes nos braços da desconhecida Primavera
 
dum planeta selvagem.
 
Rio, Rio de Janeiro,
 
quantas coisas tenho para te dizer.
 
Nomes que nunca esquecerei,
 
amores que amadurecem o seu perfume,
 
encontros contigo, quando
 
do teu povo uma onda
 
agregue ao teu diadema a ternura,
 
quando à tua bandeira de águas
 
subam as estrelas do homem,
 
não do mar,
 
não do céu,
 
quando no esplendor da tua auréola
 
eu veja o negro, o branco, o filho
 
da tua terra e do teu sangue, elevados
 
até à dignidade da tua formosura,
 
iguais na luz resplandecente,
 
proprietários humildes e orgulhosos
 
do espaço e da alegria, então,
 
Rio de Janeiro,
 
quando alguma vez
 
para todos os teus filhos,
 
e não somente para alguns,
 
abrires o teu sorriso,
 
espuma de morena náiade,
 
então eu serei o teu poeta,
 
chegarei com a minha lira
 
para cantar em teu aroma
 
e na tua cintura de platina dormirei,
 
na tua areia incomparável,
 
na frescura azul do leque
 
que tu abrirás no meu sono
 
como as asas de uma gigantesca
 
borboleta marinha.
 
Poema de Pablo Neruda
oferecido à cidade pelo autor quando de sua visita ao Rio de Janeiro em 1956
Midi: Menino do Rio
com Ivete Sangalo
Plano de Fundo : Imagem Rio de Janeiro-Brasil
Editado e Formatado por Marilene
 
 
Agradecemos sua visita
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