Texto: "Adiamento" de Fernando Pessoa
Música: "Pedra Filosofal" com Carlos do
Carmo
Fundo: Criação de Leo
Adiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei
amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje
não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha
subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço
antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um
elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero
preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é
que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço
planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para
conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho
vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de
dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois
de amanhã...
Quando era criança o circo de Domingo divertia-se toda a
semana.
Hoje só me diverte o circo de Domingo de toda a semana da minha
infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida
triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e
prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de
amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o
espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes
amanhã,
Que depois de amanhã é o que está bem o espetáculo...
Antes,
não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois
de amanha serei finalmente o que hoje não posso nunca
Só depois de
amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito
sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só
depois de amanhã..
O porvir...
Sim, o
porvir..
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