Texto:
Affonso Romano de Sant'Anna
Música:
"Io Che Amo Solo Te" - Sergio Endrigo
Fundo:
"Woman Drying Herself" (Mulher se Secando) - Degas
MULHER MADURA
A mulher madura é assim: tem
algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira.
Não é um
canteiro de margaridas jovens tagarelando nas
manhãs.
A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa
irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia.
Mas a mulher
madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a
profundidade de um violoncelo e a subtileza de um oboé sobre a campina do
leito.
A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na
madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu
sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas
mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de
Setembro e Abril.
O corpo da mulher madura é um corpo que já tem
história. inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na
adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos,
apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade
respeitosa.
Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem
o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que
nunca pronta para quem a souber
amar