As mulheres da
minha geração
Do
escritor colombiano Santiago
Gamboa
Tradução livre de Luiz Augusto Michelazzo
É o
único tema em que sou radical e intolerante, no qual não escuto
argumentações:
As mulheres da
minha geração são as melhores e ponto.
Hoje têm quarenta e picos,
inclusive cinqüenta, e são belas, muito belas, porém também serenas,
compreensivas, sensatas e, sobretudo, diabolicamente sedutoras, isto,
apesar dos seus incipientes pés-de-galinha ou desta afetuosa celulite que
capitoneam suas coxas, mas que as fazem tão humanas, tão reais.
Formosamente reais.
Quase todas, hoje,
estão casadas ou divorciadas, ou divorciados e recasadas, com a intenção
de não se equivocar no segundo intento, que às vezes é um modo de
acercar-se do terceiro e do quarto intento.
Que importa?
Outras, ainda que
poucas, mantém um pertinaz celibatarismo e o protegem como a uma fortaleza
sitiada que, de qualquer modo, de vez em quando abre suas portas a algum
visitante.
Que belas são, por
Deus, as mulheres da minha geração!
Nascidas sob a era
de Aquário, com a influência da música dos Beatles, de Bob Dylan, de Lou
Reed, do melhor cinema de Kubrick e do início do “boom” latino-americano,
são seres excepcionais.
Herdeiras da
“revolução sexual” da década de 60 e das correntes feministas que,
entretanto, receberam passadas por vários filtros, elas souberam combinar
liberdade com coqueteria, emancipação com paixão, reivindicação com
sedução.
Jamais viram no
homem um inimigo, apesar de que lhe cantaram umas quantas verdades, pois
compreenderam que se emancipar era algo mais que colocar o homem para
esfregar o banheiro ou trocar o rolo de papel higiênico, quando este
tragicamente se acaba, e decidiram pactuar para viver em dupla, essa forma
de convivência que tanto se critica, porém, que com o tempo, resulta ser a
única possível, ou a melhor, ao menos neste mundo e nesta vida.
São maravilhosas e têm estilo,
mesmo quando nos fazem sofrer, quando nos enganam ou nos deixam.
Usaram saias indianas aos 18
anos, enfeitaram-se com colares andinos,
cobriram-se com suéteres de lã
e perderam sua parecença com Maria, a Virgem, em uma noite louca de
sexta-feira ou de sábado, depois de dançar El raton, de Cleo Feliciano, na
Teja Corrida ou em Quebracanto, com algum amigo que lhes falou de Kafka,
de Gurdjieff e do cinema de Bergman.
No fundo de suas mochilas havia
pacotes de Pielroja, livros de Simone de Beauvoir e fitas de Victor Jara,
e ao deixar-nos, quando não havia mais remédio senão deixar-nos,
dedicavam-nos aquela canção de Héctor Lavoe, que é ao mesmo tempo um
clássico do jornalismo e do despeito, e que se chama Teu amor é um jornal
de ontem.
Falaram com
paixão de política e quiseram mudar o mundo, beberam rum cubano e
aprenderam de cor canções de Silvio Rodriguez e Pablo Milanez, conheceram
os sítios arqueológicos, foram com seus namorados às praias, dormindo em
barracas e deixando-se picar pelos pernilongos, porque adoravam a
liberdade, algo que hoje inculcam em seus filhos, o que nos faz prever
tempos melhores, e sobretudo, juraram amar-nos por toda a vida, algo que
sem dúvida fizeram e que hoje continuam fazendo na sua formosa e sedutora
madurez.
Souberam ser,
apesar da sua beleza, rainhas bem educadas, pouco caprichosas ou
egoístas.
Deusas com sangue
humano.
O tipo de
mulher que, quando lhe abrem a porta do carro para que suba, se inclina
sobre o assento e, por sua vez, abre a do seu acompanhante por
dentro.
A que recebe um amigo que sofre às quatro da manhã, ainda que
seja seu ex-noivo, porque são maravilhosas e têm estilo, ainda quando nos
façam sofrer, quando nos enganam ou nos deixam, pois seu sangue não é tão
gelado o suficiente para não nos escutar nessa salvadora e última noite,
na qual estão dispostas a servir-nos o oitavo uísque e a colocar, pela
sexta vez, aquela melodia do Santana.
Por isso, para os que nascemos
entre as décadas de 40 e 60, o dia da mulher é, na verdade, todos os dias
do ano, cada um dos dias com suas noite e seus amanheceres, que são mais
belos, como diz o bolero, quando está
você.
Que belas são, por
Deus, as mulheres da minha
geração!
Formatado por Thereza Cristina
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